As Lagrimas de um Pai de Santo VI


O dia nasceu com todo seu esplendor, o sol brilhante como sempre irradiando seus raios e aquecendo toda a terra.

Aquele pai de santo levanta mais uma vez para cumprir com a missão que os divinos orixás haviam lhe dado mesmo antes de seu reencarne.

Caminhou pela rua, rumo ao seu trabalho, seu coração doía muito, sentiu medo, pois pensou estar doente, sentia-se indisposto.

Seu dia transcorreu normalmente, mas aquela angustia teimava em passar.

Ao final do dia dirigiu-se ao seu refugio, o templo sagrado, La chegando cumpriu com suas obrigações saudou suas forças e firmezas e entrou.

No silêncio do templo, mais uma vez ele olhou para o altar sagrado daquele templo, seus olhos já marejaram e ele sabia que as lágrimas cairiam mais uma vez.

Caminhou confiante até a frente do altar, bateu cabeça as divindades pedindo-lhes a benção, ajoelhou-se e começou sua oração.

Amado senhor Deus, eis aqui de joelhos vosso filho, amado pai mais uma vez venho a vossa divina presença clamar pelos meus semelhantes, somos todos muito pequeninos ainda para compreender seus caminhos pai.

Acalenta meu coração que chora por também não ser compreendido nos ensinamentos que tu me deste através das divindades da Umbanda sagrada, amado pai.

Enquanto orava seus olhos derramavam lágrimas sentidas lavando seu coração de pai.

Quando terminou sua oração que durou não se sabe quanto tempo ele sentiu atrás de si uma presença, ele se virou e viu um ser enorme parado a sua frente, o saudou reverente e manteve-se de joelhos.

Salve guardião?

Salve baba!

O que o trás aqui divino guardião?

Você me trás aqui baba!

Eu? Mas eu não o chamei guardião.

Como não. Não estava ai choramingando suas magoas?

Quem é você guardião?

Não aprendeste ainda que nomes é o que menos importa baba?

Sou apenas um servo de nosso criador amparando todos os que a ele recorrem em suas angustias e não sou seu senhor.

Porque você esta ai jogado no chão choramingando feito uma criança baba?

Não estou jogado no chão e não estava choramingando meu senhor.

Já disse que não sou teu senhor, sou apenas um guardião e servo estou aqui para servir e não para ser servido.

Guardião, eu apenas estava deixando meu coração falar e vós esta sendo muito duro comigo.

Duro eu? Você deve estar brincando, você esta ai se achando o ultimo dos babas, um desvalido espiritual, quando todas as força se convergem para você.

Fica ai ajoelhado chorando quando sabes que suas lagrimas não resolverão os problemas que tem enfrentado, é de pé que um filho dos divinos orixás luta, é de cabeça erguida que um filho dos divinos orixás caminha.

Mas guardião não é fácil ver as pessoas jogando fora os ensinamentos dados pelo amor de Olorun, muito me entristece quando vejo que quanto mais amo meus filhos mais incompreendido eu sou, quanto mais quero os ajudar mais parece que atrapalho suas vidas, quanto mais sorrisos distribuo mais olhares de revolta recebo, em minha posição muitas vezes tenho que tomar atitudes que vão de encontro aos anseios da coletividade e assim fazendo vou contra anseios particulares dos que comigo caminham.

É baba tanto já caminhaste e ainda não aprendeste nada, se caminham contigo devem obedecer as ordens dadas por ti e não questioná-las, só aprende quem já esta pronto para a lição,só ajudamos aqueles que a lei determina que estão prontos para tal, se você distribui sorriso e recebe olhares maldosos é porque seus filhos ainda carregam no coração as impurezas de uma alma pecadora passível de dor e sofrimento, baba nunca ouviste que um discípulo não deve procurar um mestre, que quando ele estiver pronto o mestre aparecera.

Você foi preparado para suportar a ingratidão, não venha chorar suas magoas para mim que não darei ouvidos, pois estou aqui em nome da lei divina para abrir seus olhos quanto aos trabalhos a serem realizados por ti.

Guardião, eu sei que assumi perante meus regentes a missão de conduzir os filhos de Olorun para a luz do saber sagrado, mas eles não querem ver a luz.

Claro que não querem. Quem que vive por tanto tempo na escuridão vai querer ver a luz que os cegara?

Assim são os que chegam até você baba seres que viviam escondidos na escuridão e que começam a divisar a luz de nosso criador, mas esta mesma luz os cega e então querem fugir novamente para as trevas, só que para isso precisam se desvencilhar de ti, ai é que vem os ataques e você vem até o altar divino derramar suas lagrimas quando deveria estar lutando para que os trevosos não conseguissem tomar de ti os filhos amados que Olorun confiou a ti.

Divino guardião sinto que as força me faltam, afinal também sou um ser humano e muitas vezes me canso de tanto lutar e só ver derrotas, vejo e vi já muita coisa e a história se repete, os filhos vão se unido e travando uma batalha com as desavenças e eu como pai de todos fico no meio deste fogo cruzado tentando salvar a ambos.

Baba, deixe que lutem ate a exaustão e quando não tiverem mais força, quando já tiverem perdido até a dignidade la estará você forte e pronto para levantá-los, pois nesta luta não haverá vencedor.

Aquele baba continuava de joelhos e seus olhos ainda vertiam lagrimas e a cada palavra do divino guardião seu peito apertava e doía ainda mais.

Baba, levante-se, enxugue estas lagrimas, pois não compactuo nem me condôo, portanto sabes que és o que és e o que precisas fazer, os divinos estão contigo e sempre estarão, mostre aos seus filhos que em todos os lugares existem lideres para serem seguidos, seja na luz ou nas trevas, és um guardião dos mistérios do divino criador, portanto não quero vê-lo no chão nunca mais, não perco meu tempo.

Aquele guardião sacou de sua espada sagrada a serviço da lei maior e tocou a testa do baba que estava se levantando, ao sentir o toque da espada aquele baba viu varias encarnações das quais muitas conseguiu cumprir sua missão e muitas outras em que falhara, justamente por dar ouvidos as pessoas que queriam voltar a viver nas trevas da ignorância.

Sentiu como que o fogo divino queimasse toda sua alma, foi purificado mais uma vez.

Quando abriu os olhos estava sozinho novamente em pé, diante do altar.

Ele olhou fixamente em todas as imagens representativas saldou-as e disse:

Sagrados orixás de Umbanda, que este baba seja um instrumento da lei maior e da justiça divina, faça de mim e em mim valer com que eu possa conduzir todos os que queiram ser conduzidos, que os que eu conduzir aprendam a obedecer as lei divinas e terrenas.

Amados orixás que aqueles que quiserem voltar a viver nas trevas, eu saiba o momento de soltar minha mão, pois que caia sozinho aquele que quer cair.

Ajoelhou-se, bateu cabeça reverente, beijou o solo sagrado do templo e dirigiu-se para seu lar, onde esposa e filhos o aguardavam com muito amor.



05/10/2010

Pai Vladmir do Oxossi.


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