As Lagrimas de um Pai de Santo - IV


Aquele pai de santo tivera uma gira atribulada, muitos problemas a serem resolvidos, seus filhos não estavam se entendendo, as fofocas continuavam, intrigas infundadas que estavam causando desavenças, enfim, ele foi para seu lar com o coração apertado, sentia as forças lhe faltarem.

Quando foi se deitar, ajoelhou-se aos pés de sua cama e fez a sua oração, pediu aos sagrados orixás que lhe enviasse uma solução para tanta dor e incompreensão por parte dos seus filhos.

Deitou-se e tão logo fechou os olhos, sentiu que seu espírito havia sido retirado do corpo, muito assustado pensou:

Amado Deus meu, morri.


Quando se virou viu ao seu lado um índio muito grande e logo detectou que era seu caboclo, ajoelhou e o saudou com reverencia e a seguir lhe perguntou:

Meu pai querido, eu morri?


Não filho meu, você apenas está fora do corpo físico, todas as noites eu venho aqui para buscar-te e o levo ao aprendizado e trabalho, mas nesta noite suas orações foram ouvidas e você se lembrará de tudo que verá e ouvirá filho meu.


- Meu pai ,tenho muitas perguntas.


Tenha calma que tudo será esclarecido a você, venha, tenhamos pressa.

Ele pegou na mão daquele pai e saíram muito rápido de seu quarto quando deu por si estava em um lugar que é difícil de ser descrito, tamanha beleza e leveza.

Ele olhou tudo à sua volta, jamais tinha visto um lugar assim, o caboclo se sentou em uma pedra e pediu que ele se sentasse também, então começou a falar.

Filho do meu coração, tua dor está a incomodar nossas divindades, então estou aqui para te ensinar mais uma vez o modo de agir para com teus filhos de fé.


As lágrimas já começavam a brotar dos olhos daquele pai, não tinha como contê-las, então o caboclo falou.

Não derrame suas lágrimas, pois já lhe foi dito que são gotas de luz para os que sofrem, pois se tornam bálsamo curador, contenha-se.

Meu pai como conter as lágrimas ante tamanha beleza, não sou digno de estar aqui, por isso choro.


Filho se digno não fosse eu não o traria até aqui.

Preste atenção, você será levado ao conhecimento, portanto abra os olhos e ouvidos.

Ele mais uma vez pegou na mão daquele pai e numa velocidade inigualável viajaram, quando conseguiu ver onde estava eis que as lágrimas mais uma vez caíram de seus olhos abençoados.


Estava diante dos sete tronos divinos, onde assentados em cada um deles estavam seus pais e mães orixás, ele jogou-se ao chão, encostando sua testa no solo e em prantos os saudou pedindo suas sagradas bênçãos.

Uma voz muito suave se fez ouvir:

Filho de Olorum, por que choras?


Minha mãe divina, choro por estar diante de voz e destes meus pais e mães orixás.

E nossa presença causa-lhe dor?

Não minha mãe, muito pelo contrário, causa-me muita alegria.

Mas vieste até aqui com o coração dolorido, não foi?

Sim mãe divina, meu coração está cheio de dor pelos filhos que Olorum me confiaste e não consigo mostrar-lhes o caminho.


Filho, tu disseste que nossa presença lhe causa alegria, não é isso?

Sim mãe divina e sagrada, estar em vossas presenças me causa muita alegria.

Então filho do meu coração, por que não ensina aos teus filhos que só terão alegria estando em nossa presença e que nossa presença é constante na vida dos seres?

Ah, mãe querida, como gostaria que eles entendessem que só no seio dos sagrados orixás é que somos plenos.


- Filho levante-se.


Não sou digno de ficar de pé na presença de meus pais e mães orixás.

Neste momento ouviu-se uma voz que mais parecia um estrondo:

Filho meu, quem julga se és merecedor ou não sou eu e digo-te levanta teus olhos e nos olha de frente.


Aquele pai de santo levantou-se devagar e olhou seus pais e mães orixás um por um, as lágrimas desciam em sua face numa torrente, quase não conseguia falar, mas disse:

Amado pai Xangô, vós que sois a justiça divina e diz que sou merecedor de olhá-los de frente, ampara-me em seus braços fortes para que eu não caia em desespero.

Outra voz mais branda, mas ainda assim firme lhe disse:

Filhos dos orixás, você foi trazido até aqui para mais uma vez aprender o que já foi aprendido, não fostes escolhido por acaso, não és qualquer um, mesmo por que na criação não existe esta palavra, cada um é o um no criador, mostra não só aos teus filhos de fé que somos parte do um e ele por inteiro, mostra aos seres que somos a felicidade interna de todos vocês.


Amado pai Oxóssi, vós sois todo o conhecimento sei que sempre me impulsiona para que abra meu ser e aprenda, mas os seres humanos não querem aprender a amar, a se doar, a compreender.

Novamente a voz suave lhe falou:

Filho és fruto do desejo de Olorum, e o desejo dele é que mostre aos seus semelhantes que só vivendo em nós serão plenos em Olorum.

Amada mãe Yemanja, sei e compreendo suas palavras, mas faltam-me palavras humanas para expressá-las.


Amado filho meu, suas lágrimas estão formando um rio em meu reino e servirá para habitar e recolher todos que não ouvirem suas palavras.

Minha mamãe Oxum, encheste este meu coração de amor, o mais puro amor. Como doar todo este amor se as pessoas o confundem e criam heresias contra quem doa?

Amado filho de todos os orixás, somos a união de Olorum, somos o saber, a vida, a lei, a justiça, o amor, a evolução, a geração, o desejo, a renovação, o estímulo, a concentração, somos o tudo e o nada, o alto e o embaixo, somos o meio e no meio nós realizamos em todos vocês, a cada ser é dado uma parcela de nós, cada um de vocês nos carregam no mais íntimo, portanto nós somos vocês e vocês nos são.

Aprenda a compreender cada pessoa individualmente e a todos ao mesmo tempo, ainda que todos se reúnam em torno de uma divindade individual, pois cada ser é o que é único na criação.


Aprenderão na dor aqueles que não quiserem nos ouvir através de você, diga a todos que eu a todos perdôo, que cada palavra dita contra um irmão por mim estará perdoada, pois assim determina nosso criador Olorum.

E outra voz disse com firmeza e inflexibilidade:

Pai de santo, o babá Oxalá pode perdoar a todos, mas eu estarei sempre vigilante para que aqueles que não perdoarem e ainda lançarem calúnias contra os semelhantes, esteja a minha frente por que eu estarei na frente deles para que a lei seja cumprida.

Amados pai Oxalá e pai Ogum suas palavras acalentam meu coração eu sempre serei fiel aos ditames de Olorum nosso amado pai e divino criador, abençoe-me meus pais e mães orixás.


E todos em uma só voz o abençoaram.

O caboclo que a tudo assistia tomou-o pela mão e na velocidade que foram voltaram ao quarto daquele pai, ele ainda em prantos, pois não parara de chorar durante toda a conversa com seus pais e mães orixás olhou aquele caboclo de olhar sereno, mas firme e disse:


Amado pai caboclo, por muitas vezes quis desistir da missão que me foi dada, pois o fardo de escutar as pessoas é pesado, por muitas vezes quis desistir de lutar por não acreditar que as pessoas são capazes de mudar, por muitas vezes desanimei, portanto peço a ti que me de forças para continuar.

Filho guarda em seu ser vivo e imortal as palavras de nossos amados pais e mães orixás volta ao teu corpo que lembra-ras tudo que lhe foi dito, usa com sabedoria a sabedoria de nossos pais e mães, estarei bem aqui ao seu lado, conte comigo. E o caboclo sumiu como que por encanto.

Aquele pai de santo deitou-se sobre seu corpo e abriu os olhos, levantou-se olhou no relógio haviam se passado menos de uma hora, ainda com lágrimas nos olhos ele sorriu e pensou:


- Eu sei, sempre valera à pena.


Deitou-se e dormiu afinal no dia seguinte ele teria muito trabalho pela frente.



Pai Vladmir do Oxóssi

08/07/2010



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